No rádio, "mais é ciúme, ciúme de você...", ela ouvia calada, não estava tão assim para cantar. 15 dias que ele não aparecia em casa. estava cansada. cansada de ter que subir na boleia pra poder passar horas junto. pra ter alguma coisa pra dividir. ter o assunto, ter o que contar e o que ouvir. de começo adorava, tudo era melhor, lembrava. o cheiro, o calor, a companhia, os assuntos, as novidades, as cotidianices. gostava de tudo o que estava dentro. se sentia parte do todo. depois ficou cansada. estresse, dizia. rotina estressante. excesso de cobrança, excesso de trabalho, falta de paciência, falta de infra estrutura. reclamações, uma atrás da outra. e mais delas, e outras. todas sempre parecendo a mesma. deixou de ir. gostava de estar ao lado, gostava do que fazia, mas deixou. voltou a rotina doméstica. casa, comida, roupas lavadas, pó dos móveis, roupa passada. voltava de pouco em pouco trocar as coisas da mala. despejava sobre a cama, de lençóis bem limpos e passados, nem ligava, depositava a roupa suja, fedida, poeira, suor, falta de banho. ela recolhia e colocava no cesto, tão simples. recheava com coisas limpas e bem passadas. não ligava. se colocasse esterco, de certo dava na mesma. mas ela elegera essa vida, fazia porque gostava. ela vivia entre o passado e o futuro. fazia planos, que se desfaziam com o presente. ausente. relembrava. quando começaram, ela botou até apelido nele. TIDINHO. gostava mesmo do cheiro, da textura, até o ronco. mas depois se afastou, já não tinha mais intimidade. era um estranho conhecido. dos 15 foram 2o, dos 20 para um mês fechado. depois a cada dois, cada três, quatro, subia de um por um. e depois dos cinco parou de contar. vinha de vez em quando. mas também já não fazia diferença. ela estava, impreterivelmente sozinha. e depois de tudo, como se já não bastasse, deu de fazer entrega meio perto. não dormia em casa quase nunca, mas vinha dias pro almoço, outros pro jantar, outro prum lanche, outro só para assistir ao jornal ou um jogo de futebol. o dinheiro estava entrando, dizia. chamavam a qualquer hora. e ele ia. satisfeito. seu trabalho, seu ofício. se sentia valorizado, de certo. virou um borrão na casa. cozinha, banheiro, quarto, cama, sofá, porta, porta, porta, porta. GARAGEM. lá era certo. estava quase sempre por lá. e a coisa foi indo, se arrastando. ela não fazia menção de briga ou qualquer tipo de reclamação. e o tempo. tempo e mais tempo. um dia o viu velho, gasto. ela não se via assim. ele passou a dormir na garagem. pensava que poderia ser chamado a qualquer momento. o serviço era eficiente e tão procurado porque era rápido. não queria ter que levantar, trocar de roupa, sair, fechar a porta, ligar o motor e só então sair. dormia dentro do veiculo. dali dava partida e se arrancava. começou a implicar com coisas que não faziam sentido. ela começou fazendo pouco caso. e aumento. dos dois lados. briga todo dia. na hora da novela. na hora do noticiário. briga por cima de briga, já não sabiam mais porque brigavam. chegou dia que não se suportavam. os vizinhos reclamavam, as brigas não tinham hora, incomdavam. ela sentou na mesa, sorveu um longo gole de café amargo e preto. procurou onde estava o conhecido. não encontrou, não tão rapidamente. molhou a boca novamente. tenho ciúme. ele na geladeira, fuçando. ci-ú-me. ele pegou copo, encheu de suco, sentou na mesa. entendo. antes era mais fácil, melhor, mais bonito, cheiro bom. depois a vida na estrada, pra lá e pra cá. sofrido, mais digno. depois só me lembro de ciúme. ciúme desses que torna as coisas impossíveis. ele coçou a cabeça, tomou gole. pensou bem na palavra, que não vinha. não queria que fosse desse jeito, tinha planos, futuro. tinha vontade de ficar, de ser como era pra ser, mas não tem jeito. deu suspiro, deram. é ciúme a minha doença. me corrompe. é o que tenho no momento. ele quase falou. ajeitou os cabelos que restavam no topo da cabeça. escolhi ficar com ele. pulou na mesa. susto, raiva, dor de barriga. ele? era o que restava aos que estava fora por muito tempo, um outro, o tal "ele". nem nome tinha, assim como já deveria ter esquecido o dele. quero que você vá embora, vou ficar com o tidinho. desentendimento. dos puros, dos breves. com o tidinho? é dele que tenho ciúme, meu filho postiço, meu amor, minha vida. quero estar na boleia todo dia, dormir ali dentro. nós, não faz mais sentido, pega a casa, o dinheiro no banco, compra outro. quero o tidinho. ele não soube se o tempo parou ali mesmo ou mais adiante. borrão. era tudo.
quando se olha por fora se vê o que há por fora, mas o que há por dentro quem poderá ver...não com esses olhos, não da mesma forma que sempre se olhou...não mais assim...por dentro é mergulho, por dentro não há como não encontrar o que se procura...
quarta-feira, 12 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
DEVIR
a sensação de tudo dito, de tudo feito, de tudo sentido. o não sentido de tudo isso. quando o que se faz é comum à todos. todos já sentiram o que senti, todos já fizeram o que fiz e o que ainda vou fazer. a não suportância da rotina disfarçada em esboços de tentativas frustradas de fazer o que nunca foi feito, de dizer e escrever o que nunca foi dito. quando tudo o que há é só eco do que já esteve, do que já está, do que estará. se o mundo vai continuar é porque já continuou e se acabar, uma vez lá trás já acabou. e se repetem as coisas e as pessoas se imitam e se refletem e se copiam e se fazem de descobridores de um nada. já está tudo descoberto. não faz sentido viver o presente, não hoje, não o hoje. não faz sentido o tempo, todo tempo, nenhum tempo. são só as coisas se repetindo, repetidamente. a descoberta, repito, não descobre o que, não revela, só aponta o que já existe. e nem as lágrimas são novas, já foram lágrimas, ou mijo, ou escarro, ou rio, em outro lugar, ou nesse mesmo lugar. e tudo o que tenho não é meu e nunca será. e quando perco essas coisas que nem minhas são, onde me encontro. se não há pegadas pelo caminho, num chão que não se permite marcar. se não há avanço. se não há. o que há então? teorias de que é possível, teorias que nos fazem achar que é diferente o que não é e não será. todos somos ecos de um mesmo grito, que não me faz tanto sentido em dias assim. ecos soltos pelo vento que carrega as mesmas coisas de lá pra cá. de cá pra lá. é o ônus de ser terra redonda, de não ter fim, de não ter começo, não ter meio, de ser assim, sempre volta, que não se sabe se primeira ou última. só volta. que volta. que volta. que volta a volver. repete-se esse post, dentro de uns outros que já viram o que vejo agora. num outro papel, numa outra tela, em um outro ou nesse mesmo lugar. são só pensamentos e o devir. que já veio e irá voltar. volta.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
SÉRIE PERSONAGENS
MARIA DE LOURDES
mulher, 28 anos, tem o andar cansado de uma pata, usa óculos de grau forte, sempre arruma a armação no rosto. não tem muitos pudores ou vaidades. prefere beliscar doces ao invés de comer outros alimentos. acredita no amor de Deus e dos seres humanos. mora quase sozinha e tem, a cada semana, um número maior de cães em sua casa, com os quais conversa diariamente.
JENYFHER
mulher, 18 anos, tem dois filhos e um corpo marcado por três gestações precoces e próximas. cabelos vermelho-alaranjados, sempre com dois dedos de raiz. junta lacres de latinhas de refrigerante, acredita que dentro em breve conseguirá trocá-los por uma boa quantia de dinheiro. é o seu ouro branco. quando criança passou fome e morava em uma grande favela. hoje mora em uma "invasão" próxima a bairros nobres. trabalha como diarista. sonha mudar de vida. nenhum dos filhos conhece o pai.
ESMAEL
homem, 35 anos, cabelos ralos e pretos, olhos castanhos, faz barulhos com a boca quando come. bebe todos os dias em pouca quantidade e exagera nos festas e finais de semana. pensa desmedidamente em tudo o que vai falar, logo fala pouco. tem medo dos seus impulsos instintivos. tem na pele um cheiro constante de sabonete e nas mãos e boca o cheiro dos dois maços de cigarro que fuma desde o amanhecer até o momento em que se deita. nunca dorme mais do que duas horas por noite. tem tendências homossexuais e suicidas, briga contra isso olhando todas as mulheres que encontra com volúpia.
ALCEBIADES
homem, 72 anos, casado, cabelos curtos, grisalhos, bigode branco. anda para cima e para baixo com uma capa de gabardine bege e um guarda-chuvas. lê o jornal todos os dias exatamente as 10 horas da manhã. sonha em um dia voltar para a Itália, terra de seus antepassados. odeia banhos, faz apenas uma vez na semana, aos sábados, depois de um ritual que consiste em colocar bermudas e regata, um roupão atoalhado por cima, uma toalha nos ombros, cantar a tarantela e tomar uma dose de pinga. quando bebe, chora com facilidade.
IVO
homem, 34 anos, corpulento, desempregado, cuida da filha de dois anos para que a mulher trabalhe. desempenha todas as funções domésticas com esmero. sempre usa camisetas velhas, bermudas jeans e chinelos. raspa a cabeça, não tem um dente da frente na arcada superior. quer trabalhar, vai a diversas entrevistas de emprego, mas sofre discriminação por sua aparência. aprende coisas com facilidade, a mesma com que desiste delas. não tem um bom relacionamento com seu pai. rói unhas até a carne.
ARIEL
rapaz, 16 anos, filho de pais separados, mora com a mãe. tem dúvidas sobre suas preferências sexuais, mas prefere uma atitude "gay", acha mais fashion. tem piercing, tatuagens, e só fala por gírias. se droga todos os dias, com os mais variados tipos de drogas. odeia cigarros de nicotina. beija todos os seus amigos na boca, dorme em casa apenas uma vez na semana. sua mãe apoio suas decisões e faz vista grossa as suas loucuras. joga na cara do ex-marido a responsabilidade pelas atitudes do filho.
mulher, 28 anos, tem o andar cansado de uma pata, usa óculos de grau forte, sempre arruma a armação no rosto. não tem muitos pudores ou vaidades. prefere beliscar doces ao invés de comer outros alimentos. acredita no amor de Deus e dos seres humanos. mora quase sozinha e tem, a cada semana, um número maior de cães em sua casa, com os quais conversa diariamente.
JENYFHER
mulher, 18 anos, tem dois filhos e um corpo marcado por três gestações precoces e próximas. cabelos vermelho-alaranjados, sempre com dois dedos de raiz. junta lacres de latinhas de refrigerante, acredita que dentro em breve conseguirá trocá-los por uma boa quantia de dinheiro. é o seu ouro branco. quando criança passou fome e morava em uma grande favela. hoje mora em uma "invasão" próxima a bairros nobres. trabalha como diarista. sonha mudar de vida. nenhum dos filhos conhece o pai.
ESMAEL
homem, 35 anos, cabelos ralos e pretos, olhos castanhos, faz barulhos com a boca quando come. bebe todos os dias em pouca quantidade e exagera nos festas e finais de semana. pensa desmedidamente em tudo o que vai falar, logo fala pouco. tem medo dos seus impulsos instintivos. tem na pele um cheiro constante de sabonete e nas mãos e boca o cheiro dos dois maços de cigarro que fuma desde o amanhecer até o momento em que se deita. nunca dorme mais do que duas horas por noite. tem tendências homossexuais e suicidas, briga contra isso olhando todas as mulheres que encontra com volúpia.
ALCEBIADES
homem, 72 anos, casado, cabelos curtos, grisalhos, bigode branco. anda para cima e para baixo com uma capa de gabardine bege e um guarda-chuvas. lê o jornal todos os dias exatamente as 10 horas da manhã. sonha em um dia voltar para a Itália, terra de seus antepassados. odeia banhos, faz apenas uma vez na semana, aos sábados, depois de um ritual que consiste em colocar bermudas e regata, um roupão atoalhado por cima, uma toalha nos ombros, cantar a tarantela e tomar uma dose de pinga. quando bebe, chora com facilidade.
IVO
homem, 34 anos, corpulento, desempregado, cuida da filha de dois anos para que a mulher trabalhe. desempenha todas as funções domésticas com esmero. sempre usa camisetas velhas, bermudas jeans e chinelos. raspa a cabeça, não tem um dente da frente na arcada superior. quer trabalhar, vai a diversas entrevistas de emprego, mas sofre discriminação por sua aparência. aprende coisas com facilidade, a mesma com que desiste delas. não tem um bom relacionamento com seu pai. rói unhas até a carne.
ARIEL
rapaz, 16 anos, filho de pais separados, mora com a mãe. tem dúvidas sobre suas preferências sexuais, mas prefere uma atitude "gay", acha mais fashion. tem piercing, tatuagens, e só fala por gírias. se droga todos os dias, com os mais variados tipos de drogas. odeia cigarros de nicotina. beija todos os seus amigos na boca, dorme em casa apenas uma vez na semana. sua mãe apoio suas decisões e faz vista grossa as suas loucuras. joga na cara do ex-marido a responsabilidade pelas atitudes do filho.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
VOA QUEM PODE VOAR
ELA sempre ficava intrigada com uma porção de coisas. um dia cismou com os assentos flutuantes do avião. passou boa parte do vôo imaginando o que faria deles "flutuantes". depois de vários momentos observando e apalpando o assento, em busca de explicações, sentiu a necessidade de saber como funcionava. sabia que não poderia mais viver com a dúvida, e esse não era um dos mistérios com o qual queria conviver.
desde pequena, a história que mais gostava era de ìcaro, o que queria voar. ela, apesar do medo congelante que sempre teve encalcado em si, também desejava, no fundo, voar como um pássaro. logo pensou, se voa o avião inteiro, não há dúvidas de que flutua o assento. articulou um plano. mediu delicadamente todos os detalhes. abriu a grande sacola que havia trazido, retirou tudo de dentro e colocou sob seu banco. esperou a aterrisagem. esperou o desembarque da maioria dos passageiros. olhou cuidadosamente para ver se não havia nenhum comissário de bordo próximo. colocou a bolsa no ombro, arrancou o assento flutuante e colocou dentro da sacola em apenas um movimento. correu para fora do avião o mais rápido que pode. saiu do aeroporto à passos de gigante. não quis ir direto para casa. tinha planos melhores. foi até o centro da cidade. subiu no edifício de 40 andares. olhou tudo lá de cima. a mão dormente com o peso da sacola. abriu a porta do terraço. deixou a bolsa e a sacola no chão. vestiu óculos escuros. sorriu. saudou ìcaro. amarrou o assento flutuante no ventre com seu cinto. num gritinho pulou lá de cima com os braços bem abertos. sentiu o vento forte no rosto. sorriu de novo, agora com todos os dentes expostos pelo excesso de ar. bateu asas. lá embaixo juntou um povinho pra ver o que estava acontecendo. viu o chão cada vez mais perto. procurou em vão, em seu assento flutuante, um botão que a levasse novamente ao alto. o chão estava em frente. voltou a abrir os braços, desafivelou o cinto. sabia que os vôos não duram para sempre, logo estaria ao lado de ícaro.
desde pequena, a história que mais gostava era de ìcaro, o que queria voar. ela, apesar do medo congelante que sempre teve encalcado em si, também desejava, no fundo, voar como um pássaro. logo pensou, se voa o avião inteiro, não há dúvidas de que flutua o assento. articulou um plano. mediu delicadamente todos os detalhes. abriu a grande sacola que havia trazido, retirou tudo de dentro e colocou sob seu banco. esperou a aterrisagem. esperou o desembarque da maioria dos passageiros. olhou cuidadosamente para ver se não havia nenhum comissário de bordo próximo. colocou a bolsa no ombro, arrancou o assento flutuante e colocou dentro da sacola em apenas um movimento. correu para fora do avião o mais rápido que pode. saiu do aeroporto à passos de gigante. não quis ir direto para casa. tinha planos melhores. foi até o centro da cidade. subiu no edifício de 40 andares. olhou tudo lá de cima. a mão dormente com o peso da sacola. abriu a porta do terraço. deixou a bolsa e a sacola no chão. vestiu óculos escuros. sorriu. saudou ìcaro. amarrou o assento flutuante no ventre com seu cinto. num gritinho pulou lá de cima com os braços bem abertos. sentiu o vento forte no rosto. sorriu de novo, agora com todos os dentes expostos pelo excesso de ar. bateu asas. lá embaixo juntou um povinho pra ver o que estava acontecendo. viu o chão cada vez mais perto. procurou em vão, em seu assento flutuante, um botão que a levasse novamente ao alto. o chão estava em frente. voltou a abrir os braços, desafivelou o cinto. sabia que os vôos não duram para sempre, logo estaria ao lado de ícaro.
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