quinta-feira, 26 de julho de 2012

NÃO É NECESSÁRIO MAIS DO QUE PALAVRAS.

"Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Fazia a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, no centro da cidade, e nada do que eu lia tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas que me cercavam. Parecia que todo mundo estava fazendo jogos de palavras, que aqueles que não diziam quase nada eram considerados excelentes escritores. O que escreviam era uma mistura de sutileza, técnica e forma, e era lido, ensinado, ingerido e passado adiante.
Era uma tramóia confortável, uma Cultura-de-Palavra muito elegante e cuidadosa. Era preciso voltar aos escritores russos pré-Revolução para se encontrar alguma aventura, alguma paixão. Havia exceções, mas estas exceções eram tão poucas que a leitura delas era feita rapidamente, e
você ficava a olhar para fileiras e fileiras de livros extremamente chatos com séculos para se recorrer, com todas as suas vantagens, os modernos não chegavam a ser muito bons.
Eu tirava livro após livro das estantes. Por que ninguém dizia algo? Por que ninguém gritava?
Tentei outras salas na biblioteca. A seção de religião era apenas um vasto pantanal... para mim. Entrei na de filosofia. Encontrei alguns alemães amargos que me animaram por algum tempo, depois passou. Tentei matemática, mas a alta matemática era exatamente como a religião: me escapava. O que eu precisava parecia estar ausente por toda a parte.
Tentei geologia e a achei curiosa mas, no fim, não sustentável.
Encontrei alguns livros sobre cirurgia e gostei deles: as palavras eram novas e as ilustrações maravilhosas. Apreciei e memorizei particularmente a operação do cólon.
Então larguei a cirurgia e voltei à grande sala dos escritores de romances e de contos (quando havia suficiente vinho barato para beber eu nunca ia à biblioteca).
Uma biblioteca era um bom lugar para se estar quando você não tinha nada para comer ou beber e a senhoria estava à procura de você e do aluguel atrasado. Na biblioteca, pelo menos, você podia usar os toaletes.
Eu via um bom número de outros vagabundos ali, a maioria dormindo sobre os livros.
Eu continuava dando voltas na grande sala, tirando livros das estantes, lendo algumas linhas, algumas páginas, e depois os colocando de volta.
Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento, lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor entrelaçados a uma soberba simplicidade. O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim.
Eu tinha um cartão da biblioteca. Tomei o livro emprestado, levei-o ao meu quarto, subi à minha cama e o li, e sabia, muito antes de terminar, que aqui estava um homem que havia desenvolvido uma maneira peculiar de escrever. O livro era Pergunte ao pó e o autor era John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda.
Terminei Pergunte ao pó e procurei outros livros de Fante na biblioteca. Encontrei dois: Dago Red e Espere a primavera, Bandini. Eram da mesma ordem, escritos das entranhas e do coração.
Sim, Fante causou um importante efeito sobre mim. Não muito depois de ler esses livros, comecei a viver com uma mulher.
Era uma bêbada pior do que eu e tínhamos discussões violentas, e freqüentemente eu berrava para ela: "Não me chame de filho da puta! Eu sou Bandini, Arturo Bandini!" Fante foi meu deus e eu sabia que os deuses deviam ser deixados em paz, a gente não batia nas suas portas. No entanto, eu gostava de adivinhar onde ele teria morado em Angel's Flight e achava possível que ainda morasse lá. Quase todo dia eu passava por lá e pensava: é esta a janela pela qual Camilla se arrastou? E é aquela a porta do hotel? É aquele o saguão? Nunca fiquei sabendo.
Trinta e nove anos depois, reli Pergunte ao pó. Vale dizer, eu o reli neste ano e ele ainda está de pé, como as outras obras de Fante, mas esta é a minha favorita, porque foi minha primeira descoberta da mágica. Existem outros livros além de Dago Red e Espere a primavera, Bandini. São Full of Life e The Brotherhood of the Grape.
E, neste momento, Fante tem um romance em andamento, Sonhos de Bunker Hill.
Por meio de outras circunstâncias, finalmente conheci o autor este ano. Existe muito mais na história de John Fante. É uma história de uma terrível sorte e de um terrível destino e de uma rara coragem natural. Algum dia será contada, mas acho que ele não quer que eu a conte aqui. Mas deixem-me dizer que o jeito de suas palavras e o jeito do seu jeito são o mesmo: forte, bom e caloroso.
E basta. Agora este livro é seu."

Charles Bukowski - PREFÁCIO DE "PERGUNTE AO PÓ" - JOHN FANTE
5-6-1979

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Solidão do amor

Só apaixonada eu sei viver.
Quando eu ando.
Quando eu como.
Quando estou vendo TV.
Nada sou.
Nada faço.
Não estou.
Mas apaixonada flutuo por entre mundos que fazem tanto sentido.
Sentindo que viva estou.
É só apaixonada que sei quem eu sou.
Mesmo que depois venha a solidão do amor.
Mesmo que não venha nada depois.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

ANTI-matéria

anti.
Com o peso que deram a esta palavra. Já que quando se pensa em antibiótico, todos sorriem aliviados, mas quando se é anti-natural por exemplo, o que se recebe em troca é a dificuldade dos outros em aceitar que anti é antes de mais nada o lado contrário e nada mais. 
anti.
Com o mundo todo ao revés. Querendo uniformizar as coisas como acham que elas devem ser uniformizadas. Camisas listradas. Calças lisas. Corpos cheios e cabeças vazias. Um lugar para chamar de seu, que só reflete o que todo mundo quer. Mas esse "todo mundo quer" não passa de uma falsidade, de mais uma uniformização, uma não-necessidade, um processo em que todos somos um da maneira mais cruel, mais banal.
anti.
E nos colocam debaixo da língua, um sonho americanobrasileiroeuropeu pra sonhar. E esquecem que sonho é feito de vento. Não dá pra ser igual. Não dá pra ser de todo mundo, mesmo sendo do mundo todo. Pois se der já não é mais.
anti.
Não basta não aceitar. É necessário, preciso, urgente persuadir o contrário. Se você quer assim eles tentam te dizer que deve querer assado, querer porque todo mundo quer. Fazer porque todo mundo faz. Ser porque todo mundo é.
anti.
E ser mulher e não querer se casar. Não querer um homem. Não querer procriar. Tudo isso é anti-natural. Anti-humano. Anti-real. E então não basta não concordar. Tem que descordar agredindo, e só agredir ainda não é o bastante, tem que convencer a não querer mais, a ser igual.
anti.
Abraçar projetos burros de igualdade. De ser como todos são. Uma massa uniforme, que não se descola nunca, que não destoa, que não deforma, que não se desfaz. E então comeremos uns aos outros para ter dentro de nós o que os outros tem e perpetuar o grande ridículo de querer sempre ser igual.
anti.
Ser homem e não querer trabalhar fora. Querer criar seus filhos, limpar a casa, ou qualquer um desses esteriótipos ao contrário. Não! Não dá pra fazer outra coisa, que numa dessas nem é tão diferente assim. Eles não querem. Eles não acham bom. Eles difundem conceitos de como as coisas devem ser. E cada vez que somos o que achamos que os outros acham que devemos ser, somos esse "eles" também.
anti.
É necessário individualizar. Sem achar que individualização é o bobo "cada um por si", que eles acham que é. Ser a cada momento o que percebe ser necessário. Sem defesas. Sem mentiras. Sem precisar se encaixar debaixo das asas da maioria besta que quer apagar, dissolver, diluir, corroer. Ser, sem medo de em seguida não ser mais. Sem medo de ir ou voltar. Simplesmente por instinto, vontade ou experimentação.
anti.
Nem toda massa é profícua. Existem aquelas, fruto da massificação, que são agentes de desgraça, agentes de divórcio do ser individual, sem o qual não há necessidade de sociedade, humanidade. Sem o qual não se faz necessário mais nada. E quem sabe então um mundo melhor.

Antidoto.
Antidoto.
Antidoto.
Antidoto.
Antídoto.





segunda-feira, 21 de maio de 2012

ENSAIO SOBRE O INCRÍVEL



Os seus olhos não vão conseguir tocar. Não conseguirão conjugar a força desta sensação. Vão querer sorrir e chorar. Vão querer fazer coisas que não sabem ao certo o que são. Vão querer e poder. Vão poder e querer. Vão e voltarão cheios de águas deslumbrantes e brilhosas. Não serão falsos, não serão obscuros. Serão como deveriam ser desde o dia em que nasceram. Você estará num lugar que toca o incrível. Um lugar que faz parte, que cria, que faz nascer o incrível. Um incrível possível. Totalmente palpável. Visível.

O seu corpo vai querer falar palavras que ainda desconhece. Ira se pronunciar o tempo todo, com movimentos pulsantes que vem de um lugar que você julgava não existir. Seus pés andarão por caminhos gentilmente desconhecidos, sem precisar olhar. Sem precisar tropeçar em pedras. Sem precisar ser precisos ou compassados. O compasso se transformará em algo contínuo.

E sua mente se derreterá em delícias e desejos de forte ampliação. E escorrerá pelo lado de fora do seu corpo sem a vergonha de ser vista. Fará vista a uma humanidade que deveria existir faz tempo. Sua mente ficará se remoldando, se reacostumando, se customizando com visões de uma grande simplicidade.

Será e é como um começo antes do próprio começo. Antes de tudo existir, mas quando já existe. E se sentirá em casa em terra estrangeira. E as palavras flutuarão por entre seus dedos, fazendo cócegas e provocando arrepios de louvor. Será como estar em casa pela primeira vez depois de tempos ocultos. Como abrir a porta de um sonho e entrar. Como esticar o braço para alcançar a si próprio e poder sentir sua pele macia pelas pontas dos poros bem abertos.

E na boca sentirá o gosto de todos os gostos. Se plantando no céu que há em ti. Sentirá que há gosto em tudo o que há. O ar que entrar pelos seus pulmões fará com que seus órgãos internos flutuem. O ar que entrar pela sua garganta fará com que seus pés fiquem plantados, desde a planta até os dedos. E sua cabeça será como o mundo, grande, enorme, gigante, não terá peso, somente uma memória repleta de fotografia digitais tiradas por olhos ávidos por coisas comuns.

As encontrará. Coisas comuns espalhadas pelas quadras. Pelos imóveis de número ímpar, pelos pares que andam pelas ruas. Será bom. Como dormir e sonhar e acordar sonhando e decidir a hora de terminar de sonhar e preferir não terminar. E tocar tudo com as pontas dos dedos dos olhos nus. Tocar tudo com a ponta da língua em riste na frente do corpo reto que caminha sem precisar saber.

Será um presente incrível, permeado por passados futurísticos, se misturando ao que é vivido naquele momento. Serão dias reais em pensamentos oníricos. Será assim quando habitar o lugar da tua pele.


Será assim em Montevideo.