quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Não o amor. O amor.

Se for amor você não saberá.
Ele é da ordem do inominável.
E o preenchimento será, então, desesperador.
A agonia de ser completamente tomado pelo que você desconhece, ainda que lhe reconheça a face. Será sugado pelo escuro acolhedor, sem bordas, sem contornos. 
E verá a luz contida na escuridão. 
Você não saberá e sentir vai torna-lo ainda menos. 
Os tremores nascerão e morrerão no centro. 
E a solidão se tornara uma espera ensurdecedora. 
Quando se tratar deste amor que vos falo, e que todos desconhecem, a loucura suave de algum amanhã será a única salvação. 
Não saberão onde estão, mas saberão o que significa pertencer a um nada agora desejado.
Sim.
Vocês poderão se reconhecer.
De tempos em tempos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O amor que samba. (Para João Pedro)

Eu chego e ele já me espera na porta. Como quem espera faz tempo. Como quem sempre te esperou. Ele tem um sorriso que torna as bochechas bem erguidas, ele tem todos os dentes expostos. Ele destoa de tudo o que há no mundo. Tudo que não é ele passa a ser demais.
Eu abro os braços já sabendo que o abraço estava guardado fazia tempo. Ele não sabe o que faz. E eu não sei o que fazer com ele que não sabe o que faz para me agradar. Para dizer que é feliz pelo simples fato de eu estar ali, tão perto dele.
Coloca uma música nova que descobriu e dança.Percebe que eu não acompanho os seus passos tanto quanto ele gostaria. Desliga. Quer mostrar tudo.Recuperar o tempo perdido. E vai além. Reconstrói nosso mundo do momento em que eu sai e ele ficou. Inicia nosso jogo de onde paramos, com as mesmas peças, com a mesma alegria de jogar.
Estamos felizes. E felicidade aqui é outra coisa. É pequena. É pouca. Mas nos satisfaz. Nos torna tão humanos quanto se pode ser, naquele exato momento em que estamos. No presente. Em que não há passado possível e nem futuro provável.
E então tudo está certo. A lição foi feita. Ele me ensina alguma coisa que eu ainda não sei. E extrai de mim algum ensinamento maior do que suponho poder dar. Me coloca a par de tudo. De quem ele se tornou desde que o deixei. Voltamos a ser quem sempre fomos um para o outro, vento na cara, amor pequeno, olho no olho sem piscar, quem ri primeiro.
E por fim ele coloca samba. Ele já sabe do samba. Mesmo que eu tenha estado longe. Mesmo que eu não tenha dito nada. Mesmo que ele não saiba sambar bem bamba. Ele sabe escolher o Cd, sabe ligar o som. Sabe tocar dentro do coração. 
E passa as mãos pequenas no meu cabelo, que faz meus pensamentos e problemas tão pequenos diante daquelas mãozinhas. E implica com o tempo que demora pra ver um email. Ele implica. O tempo agora quer ser só seu.
Ele tem um amor que samba. Miúdo, bonito, feliz, mimoso. Ele sabe bem mais do que imaginamos. Não nos fala nada disso. Não quer nos assustar. Não quer que nos sintamos menores diante da nossa impotência. Estamos vivos. Temos o que precisamos, que nem é tanto quanto imaginamos. Somos felizes.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

E se não der mais?

Como é que a gente faz? 
Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima?
Por cima de quem? 
De mim ou de você?
Quando já não há mais saída.
O melhor é ficar onde está ou escavar as paredes?
Quando não se sabe o que quer.
É preciso querer o querer.

As vidas se encostam.
As vidas se separam.
As vidas seguem.
As vidas voltam.
Nós somos a vida.
Sua vida pertence a você?
Ou é apenas um joguete de vontades alheias?

Como é que a gente faz?
Quando não somos mais capazes de perceber.
A diferença de ser ou não ser.
Levanta e segue em frente?
Segue em frente que atrás vem gente?
E o medo de ser pisoteado é a perdição.
É preciso querer, ou então...

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

FILHO DE DEUS

Estava na sala do médico. Meio com medo. Meio com curiosidade. Nunca tinha ido. E a mãe orientava de todo jeito. O que fazer, de que jeito fazer, o que falar, de que jeito falar. O tom da voz, a postura do corpo. Tudo baseado numa máxima. Somos filhos de Deus e temos que nos comportar como tais.
E então que o médico era renomado. E então que o consultório, desde de cedo, era lotado de gente a espera de uma consulta, de um encaixe, de um favor, de uma palavra com o Doutor. E eles ali, misturados naquela maçaroca.
E chamavam um. E chamava outro. E nada de chamarem pelo nome dele. Já estava ficando impaciente. E achava engraçado, em sua cabecinha pequena, um paciente impaciente. Mas era educado, incapaz de contrariar a ordem das coisas.
Mas o tempo foi passando. E com ela aumentando as coisas pequenas. O que era impaciência virou implicância. O que era fominha, virou fome voraz, o que era medo virou pânico e assim por diante. Começou a deixar de lado a boa educação para dar lugar a verdadeira sinceridade.
A mãe não sabia mais o que fazer. Não podia abandonar a chance de ser bem atendida no renomado consultório, mas já não suportava mais olhar para a cara do menino, que a essa altura fazia e desfazia, mandava e desmandava pela sala de espera-longa-espera.
O pandemônio estava instaurado. As secretárias destratadas, os pacientes se digladiando, as revistas desorganizadas, um verdadeiro caos. E o Doutor lá dentro, alheio a tudo isso, realizando calmamente as suas consultas.
No auge da balburdia, chega um homem que parecia impecável, porém arrogante. Aquela impecabilidade que deixa o ar pesado de tanto que é. Conversa diretamente com a secretária, sem fazer muito alarde. Segue para um canto e mesmo tendo um espaço vago em uma das cadeiras, não se senta.
Em seguida a porta do Doutor se abre, sai o paciente que lá estava, com uma cara de nem mais nem menos amigos.Neutro. E o Doutor quase não é visto. Ele não passa de uma mão que sai de trás da porta e volta com o fechamento dela.
Não tarda nem dois segundos e a secretária entra, com papéis na mão. E ao sair da sala de consultas deixa a porta entreaberta. Uma voz sai feroz lá de dentro. Mas não um feroz que mata e fere. Um feroz que domina e faz querer cumprir a ordem dada. É o Doutor. Ele diz João Jesus de Deus Filho. E para a surpresa de todos que ali esperavam pacientemente, entra o homem impecável que havia chegado não fazia nem minuto.
Se indignaram por dois ou três segundos com o Doutor, mas logo voltaram-se uns contra os outros. Não contra o Doutor, ele não. Estavam ávidos por suas boas consultas. Indignaram-se contra a secretária, coitada, encolhida num canto. E quando já não havia mais para onde ir, e menos ainda o que fazer. Eis que surge uma voz quase retumbante, mas ainda imatura para tanto. 
- Somos todos filhos de Deus! Gritou o menino sobre a sua cadeira.
E o que se viu depois, foi guerra, nem quente, nem fria. Uma guerra morna entre todos contra todos.