quarta-feira, 18 de setembro de 2013

SOB UMA AVALANCHE...

UMA AVALANCHE de erros.



E crescendo. Como uma bola de neve que só sabe descer e crescer. Acumular os erros que já se foram com os que ainda virão.

Digamos que você esteja num lugar. Digamos que você não saiba dizer ao certo se gosta do lugar ou não. Vamos dizer que você esteja num momento "saco cheio" e prefira dizer que não gosta tanto do lugar que vive. Vamos pensar que você tem coisas para resolver. Muitas coisas. Digamos que elas não sejam qualquer coisa, sejam coisas grandes, daquelas pequenas coisas que se acumulam e num dado momento formam um monte maior do que você pode escalar. Digamos que você culpe a cidade e seus habitantes pelos erros que você mesmo comete(u). Você culpa as pessoas, as coisas, os lugares, você culpa o clima. Você não consegue compreender nada. Você já não consegue mais ver nada. Você só consegue culpar. Culpar os outros.
Digamos que depois de algum tempo vivendo nessa espiral de culpa e ilusão, você recebe uma proposta. Uma nova cidade, uma nova casa, uma vida nova. Vamos dizer que você acredite que isso seja a saída, que seja a cura para todos os seus males. Você faz planos, você sente a esperança deitar ao seu lado. Você sorri para ela. Você deita, você dorme e sonha. Sonha com dias melhores, com pessoas melhores, com lugares mais quentes. Você cria novas ilusões.
Digamos que você ainda não consiga compreender a lógica da vida. E num desespero em  fugir do que tanto te incomoda você corre. Corre com tudo e com todos. Você coloca todas as coisas numa grande mala de viagem. Você  fecha porta, janelas e tudo que possa ser fechado. E sai. Sai como se sair fizesse de você uma pessoa mais feliz. Digamos que você esta sentindo um misto de felicidade e frio na barriga. Digamos que você interprete isso como normal, devido as circunstâncias. 
E então por dois ou três minutos você voa. Você fecha os olhos e voa alto. Sem nada e nem ninguém para te incomodar. Por dois ou três minutos você se sente livre como há tempos não se sentia. por dois ou três minutos você acredita. Com os olhos fechados você acredita. E então você abre os olhos. E talvez neste momento alguma coisa se perca ou se quebre. Talvez neste momento, sem você perceber, você acabe perdendo alguma coisa. 
E então você abre os olhos e está num outro lugar. Um lugar que você não conhece, não se reconhece, mas isso ainda não é um problema. Neste momento você julga que deixou todos os problemas para trás...
Digamos agora que o tempo passe, que passe de uma maneira estranhamente rápida. Digamos que vendo o tempo passar assim, de longe, de perto, de todos os lugares, você perceba que alguma coisa esta fora do lugar. Digamos que você comece a prestar mais atenção. Vamos dizer que você tenha tanto tempo livre que comece a olhar para você mesmo. Comece a olhar para você mesmo com tanto apresso que perceba coisas que julgava não existirem. Nunca existirem em você.
E comece a tirar as coisas da mala que você encheu antes de sair. E de lá tire, entre uma muda de roupas ou outra, um probleminha ou outro. Uma Rua XV ou uma nuvem cinza. E coloque nos mesmos lugares que já estavam antes de você partir. E começa a perceber que gostava tanto. Um tanto deste tamanho assim. E começa a sentir uma saudade assim, deste tamanho. E começa a não se reconhecer. 
E depois de tanto tempo passado, você começa a perceber o que fez. Começa a perceber a mala que levou. Começa a ver que aqueles problemas tem pernas longas. Que eles andam por dentro de ti. E não importa quão alto você voe. Não importa quanto longe você vá. Eles vão estar lá, te esperando no saguão do aeroporto ou da rodoviária. Eles e somente eles te abrirão os braços e colocarão óculos escuros em seus olhos, para que você não veja nada além deles. Eles são insistentes. Eles são espertos. Eles são o que você é. E você precisa matá-los. Exterminá-los. Sem dó. Sem piedade. Ou então eles farão isso por você.
Digamos que essas coisinhas pequenas que você não consegue resolver. Essas que vão onde você está. Essas coisinhas estão ai, a te corroer, a te cegar. E não importa onde você vá. Eles vão te seguir. E chegará o dia em que não haverá lugar para se esconder. E você vai ter que decidir. E você terá que resolver. Ou terá que viver sem ter um lugar para chamar de seu.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A GREVE





Nada se podia fazer. Tudo parado. Desde ontem eles resolveram paralisar os trabalhos, não mexiam uma palha. O dia inteiro lá, estáticos, nem gritaria, nem manifestação, nem nada. Só estavam lá.
No começo só os realmente afetados pela paralisação é que sentiram falta. Mas depois de duas semanas, toda a população começou a ficar incomodada, preocupada e até angustiada. Tentaram de tudo, protestos, contramanifestações e propostas. Mas nada adiantava. Eles sequer levantavam os olhos para o que os cercava.
Mas sem que eles dissessem o que queriam, a situação só se complicava. Quem não ouve, não sabe nada. E pouco a pouco a gravidade tomou conta não só de uma ou outra cidade, mas de um país inteiro. As rotinas alteradas, as pessoas desmotivadas. Apenas uma meia dúzia falava bem, achava bom, usava o tempo que agora sobrava para fazer outra coisa. Mas a maioria da população, a grande massa, estava deprimida. Acuados, sem grandes pretensões para o futuro, sentavam por horas sobre seus sofás, sem fazer nada. Nem assuntos tinham e se tivessem só seria para reclamar a falta.
E quando não havia mais saída, resolveram tomar uma atitude drástica, pressionar a classe com palavrório desclassificado, pedradas despropositadas, cusparadas e gritaria. E por fim, depois de muitos frangalhos dos dois lados, elegeram um que mais ou menos falava. E ele, tomando a frente, ainda que receoso, subiu nuns caixotes, como se só ali soubesse falar. Procurou algo como uma luz especial e se posicionou como se tivesse uma revelação que faria tudo mudar.
Mas demorou um tempo, tanto tempo que não deu pra esperar e começou o bate-boca, o trololó, o quebra-quebra. E quando se achou que mais nada conseguiria ser resolvido e que para sempre estaríamos fadados ao nada, viram um de cada lado, num cantinho, quase que escondido, conversando. Quer dizer, conversar com palavras, com toda aquela normalidade, não conversavam, ele gesticulava e fazia caras e bocas e o outro anotava, anotava e anotava.
 E depois de uma pausa dramática na bandalheira, se separaram e aquele de agora pouco, voltou a subir no caixote. Alguns vaiaram com uma força vocal descomunal, mas os mais expertos se cutucavam, apontavam para as mãos da figura e cochichavam. E em poucos segundos o tal se arrumou, estufou o peito e falou, em alto e bom tom.
 E depois de exatos oito minutos falando, todos ficaram boquiabertos e até espantados. Baixaram os olhos, foram dispersando e saindo sem briga, calados. E no dia seguinte não mudou muita coisa. A greve continuou, e todos sabiam que seria uma greve eterna, nunca mais veriam nada.
Uma reivindicação impossível de ser realizada. Nunca mais alguém poderia ver teatro, novela, propaganda ou qualquer outra coisa que necessitasse de uma personagem. Elas não voltariam a trabalhar, já que o pedido delas, ter uma vida, pensamentos, verdade própria, jamais poderia ser realizado.
E até que tentaram, numa junta de grandes mestres escritores, poetas, dramaturgos, escrever umas coisinhas pra gente de verdade fazer, mas não era a mesma coisa. Pra ver o que se via todo dia, era melhor abrir a janela e olhar para a rua, de graça.


sábado, 1 de junho de 2013

Depois de tudo.

E então depois de tudo haverá o que há de haver.




E não no começo, como achamos que deve ser. Deveremos aprender, deveremos esperar, deveremos não saber para só depois saber. E os erros serão menores, menos danosos, os erros serão, então, só tropeços dos quais conseguiremos nos levantar para continuar a andar no dia seguinte.

E então no fim, saberemos o que há entre duas pessoas. Saberemos o que é o amor. E não no começo. Como tolos que correm num quarto escuro com paredes afiadas. Não como os apaixonados. Pois apaixonar-se é só a porta de entrada. Pois apaixonar-se não é mais nada do que isso ai.

E somente depois de andar de mãos dadas. Somente depois de pisar no pé do outro. Depois de mijar com a porta aberta. Depois das mentiras. Das que você contará. Das que ele contará. Das gravidades. Das amenidades. Só depois de tudo poderá haver alguma coisa entre nós.

Não agora.

Não agora que não sabemos nada um do outro e já cometemos mais erros do que podemos suportar. Não agora que não sabemos nada e já juramos tanto. Essas juras. Essas que nos cobraram fazer sem ao menos saber. Quem é que pode jurar pelo que vai acontecer. Eu juro pelo que já aconteceu, pelos meus pés andando ao contrário, num tempo que não existe mais. É somente por isso que juro. Juro pelo que sei.

Pelo que não sei espero. Pelo que não sei aprendo. Pelo que não sei, não sei, não juro.

E então depois das coisas todas ditas. Depois de não necessitarmos mais de palavras. Depois de magoar sem querer. Depois de magoar por querer. Depois de não querer mais nada. Depois não é antes. Depois nunca será antes de tudo. E inverter a ordem das coisas nos dias em que vivemos é canalha demais.

Primeiro tem que dizer não, para poder dizer sim. Tem que quebrar ovo no chão. Tem que rir alto. Tem que ir ao mercado. Tem que dormir mal. Tem que cuspir verdade um na cara do outro. Tem que se apaixonar um pelo outro. Primeiro tem um monte de coisa mais importante do que um sim.

Já que sim mal dado, é sim jogado fora. Já que sim dado sem saber é aceitar tudo o que pode vir e desperdiçar o que poderia ser. Sim não vale tanto assim.

Sabe... Tem que morar na mesma casa. Tem que dobrar lençol de elástico e de malha. Tem que tomar chá. Tem que tomar água. Tem que tomar muita pinga antes de tudo. Tem que passar dias com a mãe do outro. Com o pai do outro. Com os irmãos do outro. Com o outro, tem que passar.

Sabe... Pra dizer sim tem que acreditar. E pra acreditar... Pra acreditar não basta mais a mera esperança e confiança de que tudo vai dar certo. Não vai. Não acredite que vai, pois não vai. Nem a vida é tão certinha assim. A vida também dá as suas escapadelas. A vida também dá as suas escorregadelas. Suas cadelas ou seja qual delas. A vida também dá.

E não tem burrice maior do que achar que vai dar tudo certo. Que pi-ri-ri pi-ri-ri. Que é só jogar água que a planta nasce. Que é só jogar água que a planta cresce. Que é só jogar água que a planta dá tudo o que você acha que ela vai dar. (Tudo o que você quiser!) É melhor comprar livros melhores da próxima vez.

E então eu voto assim. Dou meu voto de confiança que só no fim é possível dizer o que quer que seja. Mesmo que seja um sim. Sou dessas que só no fim. Só depois de tudo roto. Só depois de tudo e um pouco é que podemos levantar a cabeça e dizer que sim.

Sou dessas que acha que casar no começa está errado. Do lado contrário. De ponta cabeça. Está do fim para o começo. Sou dessas que acha que tem que andar muito chão, pra só depois então poder dizer que sim. Sou dessas que acha que sim no começo é já dizer fim.



E então.

Lá no fim.

Se sim.

Sim.

Senão.

Tudo bem.

Também.

E fim.

quinta-feira, 9 de maio de 2013


Eu tenho um amor. Eu tenho uma paixão.




Eu te amo. Te amo e sou apaixonada por você. Mesmo sabendo que de tão parecidos esses sentimentos não se bicam. Eles são só parecidos, eles só caminham pelas mesmas estradas, mas no fundo, não são tão amigos assim.
E então eu descubro, a cada dia que eu acordo ou a cada dia que eu durmo, se neste momento é o amor ou a paixão que está em mim. E então eu sinto. Apaixonada neste dia. Amando no outro.
Você entende isso? Não? Nem eu. Mas sinto. Sinto de tempos em tempos. Como se amar e se apaixonar fossem passos de dança, que dependem de musica, que te fazem se mover de acordo com o que se ouve.
E então aqui estou. Sendo interferida pelo mundo. Pois é o mundo que faz amar você. Pois é o mundo que me faz me apaixonar por você. Quando eu saio porta afora. Quando eu ando pela rua. Quando eu respiro o vento gelado. Quando eu vejo os outros. Quando os outros me vêem.
Eu te amo. Numa mão que passo no seu rosto quando você dorme. Quando você me olha dormir. Quando a gente anda descalço. Comemos da mesma comida. Nos olhamos nos olhos. Esfregamos as costas um do outro. Dizemos “meu amor”. Não dizemos nada. Só sentimos. Ou conversamos até amanhecer.
Eu sou apaixonada por você. Quando espero você chegar de noite com meu corpo quente. Quando sei o que eu quero te fazer. Quando vejo seu corpo se mexendo. Quando sua barba encosta em mim. Quando vejo sua roupa no chão. Quando ouço o barulho do chuveiro. Quando vejo outro alguém.
E a vida só faz sentido assim. Dia após dia. Com todas essas interferências. Com todo mundo em volta. Sem ninguém por perto. Com você por dentro. Só faz sentido se for pra sentir. Se for pra ter alguém ou não ter ninguém. Mas saber que existe um mundo para ser desvendado. E que não controlamos nada e nem ninguém. Que não controlamos sequer nós mesmos. Estamos aqui. Amando e nos apaixonando. Esperando sem esperar.