chego ao fim da tarde, enfim...chego a conclusão não mais amena do que as que tinha quando ela iniciou de que quero demais de uma vida só...quero demais desta vida...quero mesmo a perfeição, a verdade, a poesia, o belo...quero amor eterno, quero amor verdadeiro, quero saber...quero ser o tempo todo...quero ser querida por todos, desejada, quero estar apaixonada sempre, quero viver em plenitude hora pro hora...nada chega, nada serve se não for até o topo, até a tampa, se não for demais não dá, não serve, não é pra mim então enfim...e dai fico neste dilema diário, falta-me alguma coisa, faltam-me várias coisas que nem ao menos sei mensurar, falta-me o mágico diário, cotidiano, que certamente não existe, não há contentamento para mim em apenas estar viva, sou arrogante, sou megalomaníaca, sou esquisita mesmo...fica sempre raso demais o dia, fica sem graça, sem fé...fico brincando de roleta russa com a vida...fico desdizendo dia após outro, querendo mais do que é real, mais do que é humano, sonhando quem sabe com o impossível...vivendo de magia sem ter nada de mágico em que me apoiar...querendo ser Deus num pecado só...de uma hora pra outra resolvi querer ser Deus eu acho...querer o divino, o perfeito, o eterno mesmo sabendo que não sirvo para a eternidade...e dai chega o fim da tarde...e a desgraça se abate sobre as minhas doces lágrimas, mais lágrimas, sou megalomaníaca...a tristeza toma conta de mim já que em dias eu a desejo como uma força sobrenatural...tenho essa mania de querer sempre mais, essa mania de que nunca é suficiente o que tenho, o que vivo, na alegria e na tristeza...nada serve se não for o incomensurável...está sempre faltando uma peça pra que eu possa jogar...sempre falta um canto no quebra-cabeças...sempre...nada chega, nada chegará...está sempre faltando uma parte, um membro, sempre está faltando algo no que nem sei se sou...
quando se olha por fora se vê o que há por fora, mas o que há por dentro quem poderá ver...não com esses olhos, não da mesma forma que sempre se olhou...não mais assim...por dentro é mergulho, por dentro não há como não encontrar o que se procura...
sexta-feira, 27 de março de 2009
VISITA AO DOUTOR Nº 1223
OLÁ DOUTOR, posso entrar?...posso me sentar?...posso começar ou o senhor é quem diz quando devo começar?...doutor tem problema se eu chorar um pouco?...doutor e se eu chorar por horas desesperadamente tem problema?... e se eu chorar na recepção terei que pagar por todas as horas que ficar aqui?...sim eu aceito uma bala sim, pra adoçar não é doutor?...posso começar?...não doutor, eu acho que não está funcionando, não, não está funcionando, e eu não acho, eu tenho certeza de que não está funcionando...sim, eu posso falar sem gritar e sem me exaltar doutor, eu posso sim...mas é que eu prefiro...sim, eu entendo doutor, entendo que tem outras pessoas lá fora esperando e que elas podem pensar coisas sobre mim e até sobre o doutor, eu entendo...quanto tempo eu ainda tenho doutor, o senhor pode me dizer?...é pouco não doutor...é pouco!...mas vamos lá, não faz diferença, o tempo não aumenta não é...ele só diminui, me diminui não é...então vamos lá doutor...não eu não sei qual é o problema desta vez, na verdade eu sei mas tenho vergonha de falar...na verdade não é vergonha, eu simplesmente não quero falar...sabe doutor, falar as vezes é admitir coisas inadmissíveis...o senhor estudou, deveria saber que as pessoas mentem, mas que não é sempre só por mentir...deveriam ter desenvolvido uma terapia da mentira, talvez algumas coisas fossem melhores se houvesse uma terapia da mentira, mentiríamos com fins mais nobres e acho que poderia se melhor...sim, doutor, eu entendo perfeitamente...certo doutor, eu vou ao ponto...quanto tempo me resta?...mais uma bala, sim, é claro...posso pegar logo duas doutor?...não, tudo bem, não tem problema, uma é suficiente, não é?...pra adoçar a vida não é doutor...pois então doutor, acontece que hoje eu não acordei...sim doutor, eu estou aqui acordada, mas é que o senhor me cortou...sim, doutor, eu compreendo...sim, doutor, não tem problema...eu não me sinto bem doutor, pronto, vamos direto ao ponto, ao xis da questão...eu não me sinto bem...como assim não me sinto bem...simplesmente não me sinto bem doutor...só não me sinto bem...não é possível, doutor...preciso ser mais específica...sim doutor, eu serei mais específica...doutor eu não consigo...não consigo ser mais específica...não doutor, eu não vim aqui pra reclamar e nem muito menos pra falar das minhas não especificidades...doutor, eu acho que estou um pouco confusa...sim, eu vou ser mais clara, doutor...doutor, o problema é que me sinto confusa, simplesmente confusa, talvez só um pouco, ou pouco mais do que um pouco...sim doutor, eu vou tentar...doutor...doutor, eu não consigo ser mais clara...doutor eu posso começar a chorar agora, quanto tempo falta?...ainda não...tudo bem doutor, eu entendo...doutor acho que foi porque escutei aquele barulho horrível e depois o nada e isso me deixou um tanto nervosa, não muito nervosa, mas alterada no meu nervosismo normal...que barulho horrível?...aquele barulho que se parecia...doutor...doutor...eu não sei com o que se parecia o barulho, era simplesmente um barulho horrível...doutor, eu não quero tentar ser mais específica, nem mais clara, nem menos confusa doutor...eu posso começar doutor?...quanto tempo falta?...sim, eu aceito mais duas balinhas, talvez três doutor?...tudo bem eu compreendo...posso começar?...sim, eu entendo...quanto tempo mesmo falta doutor?... ... ...doutor, posso?...mas já doutor?...mais eu nem ao menos... doutor,não é necessário, eu posso andar com as minhas próprias pernas...doutor, quem sabe mais uma para adoçar a vida?...tudo bem doutor...sim, doutor, eu acerto na recepção...talvez lá eu possa...tudo bem doutor, voltarei quando marcado...muito obrigada doutor, tenho um bom dia e até mais ver...sim, doutor, eu sei...compreendo...doutor uma última coisa, as balas não me pareceram tão doces quanto deveria ser...pois não doutor...
NÃO É UMA LÁGRIMA, SÓ UMA IRRITAÇÃO OCULAR
QUERIA ser mais forte na vida sim, queria não acordar alguns dias assim como hoje, queria ter peito pra mais coisas do que tenho, acho que tenho pras que não precisaria ter e não tenho pras que preciso...queria ser mais fodona mesmo...olhar em frente e ter boas expectativas sobre o que virá...queria ser mais otimista, não aquelas otimistas bobas e bossais que vejo por ai, mas daquelas otimistas que num dia não acreditam muito nas coisas, mas que em algum dia acreditam que pode haver amanhã...que o amanhã pode ser melhor, não as que dizem que pode e vai ser melhor, aquelas que acham que pode ser melhor...chego a não acreditar no poder das palavras, palavra pra mim já virou uma coisa tosca que nos aprisiona em paralelos inúteis...queria não precisar comer e nem falar nunca mais na minha vida...tudo bijuteria, brilho falso, por baixo plástico ou qualquer outro material que vai se decompor assim como eu em dias assim já estou me decompondo...me veja tudo o que tenho na vida em bala, um saco cheio de balinhas, é o que eu diria hoje se pudesse abrir mão...minha mão está fechada demais pra abri-la em qualquer situação...preciso me lembrar de mim, preciso me esquecer do que acho que sou e me lembrar de quem realmente sou...bijuteria...tem coisas que nem banho de ouro esconde, não disfarça...tem tanta farsa nesta vida...queria poder dizer o tempo todo o que penso, queria muito poder dizer realmente o que penso de mim, de você, dele e dela...queria poder externar minha raiva quando ela aparece, minha ira, minha fúria, queria poder externar tudo o que aparece vez por outra por aqui...o velho e bom convívio em sociedade, sempre me podando, sempre me tolindo, sempre me moldando numa massa podre que não faz parte de mim, mas que recebo como se fosse...queria poder dizer o que pensei ontem, queria poder usar as palavras toscas pra dizer coisas bobas, mais do que um olhar enfurecido queria poder dizer palavras toscas...queria dizer que na verdade é mentira um monte de coisas que digo que são verdade...sabe, tem coisas que minto, minto pra viver melhor, mas só piora, só torna tudo pior mentir...mentir pra você, pra eles e pra mim...queria poder dizer que na verdade eu não bebo muito não porque faço besteiras e fico insuportavelmente feliz...na verdade não bebo porque meu pai bebe por todos nós e o que mais me mata é vê-lo assim...e olhar sobre mim na mesma situação é muito mais do que morrer de uma vez só, é morrer aos pouquinhos...queria dizer que na verdade eu minto na maioria das vezes que digo que tá tudo bem, que pode ser assim, que tudo bem...minto pra não ter que ver mais uma vez as coisas de um jeito que nunca achei que poderiam ser, pra não perceber que tem coisas que só eu vejo, que só eu sinto...e que tem outras que só eu não vejo...prefiro não usar as palavras toscas, tenho medo delas como de ladrão e de bicho feroz no meio do mato...sinto saudade sim, saudade de umas coisas que guardei tão aqui dentro, tão dentro que vez por outra acho que perdi...vez por outra, não sempre...queria minha vida de volta, uma vida que eu mesma tiro de mim todos os dias...queria viver de fúria, paixão, música e quase nada de dor...
quinta-feira, 26 de março de 2009
PAPITO...
algum dia na vida eu vou ter as palavras certas e não vai ser tarde nem cedo demais pra usá-las, quero próximo o dia em que vou ter na ponta da língua toda linguagem necessária pra te dizer o que sinto o tempo todo por ti...tamanha é a sua importância em minha vida, mesmo quando não dou importância nenhuma a ela...mesmo quando não me importo com você, ainda assim é importante demais...em pensar que eu não era nada e do nada você me tirou...em pensar nas coisas que eu não sabia de maneira nenhuma e você me ensinou e ensinou mais do que devia, mais do que podia, mais do que queria...e se sei amar com o devido cuidado descuidoso foi você primeiro que me amou...e se algum dia cai... sua mão estava lá, ainda que a contra gosto em certas vezes, ainda que a contra gosto meu ou seu, sua mão sempre esteve lá...mas e o coração, o que falar de um coração que nunca deixou de ser o meu lugar, minha terra verdadeira, minha segura segurança...como se coração fosse feito pra essas coisas, como se coração fosse lugar pra morar, pra viver, mas no seu tenho essa certeza, uma das poucas que tenho na vida...e que não tenham ciumes os demais, é questão de afinidade e afeto, é questão de outras vidas e de parceria...somos sim parceiros nesta e em outras tantas que vierem...eu sei o que pensa mesmo quando nem pensou ainda, você sabe o que quero dizer quando eu nem saber falar sabia, sabia que o sabia sabia "subiá"...é uma questão de companheirismo...isso sim, companheiro...é questão de viver de mãos dadas, onde quer que estas mãos estejam...elas não precisam estar sempre grudas pra estarem unidas e nós sabemos disso...papito...ah se eu pudesse seguir os seus passos por todas as aventuras desta vida...mas morando onde moro, bem dentro do seu coração doce de açúcar e amor...vou com você onde que que vá...
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