domingo, 29 de novembro de 2009

caminho

da busca ao encontro, que se fez, que desfez o rosto em águas, que desfez o semblante em uma dor latente que se fez tão dura como as pedras que pisou... como as pedras que bateu, como as que ao rio arremessou... na vastidão de um mundo vão fica a dor de uma lacuna que não será preenchida por falta de uma vida que se foi... ficam os braços que não se perdem nos abraços, mas se encontram mais adiante, numa curva, numa beirada, numa outra parada ou num ponto onde muitos descem e poucos sobem... fica o calor da mão e palavra certa que inspira o incerto das realizações... fica o joelho dobrado e batido que se desdobra na direção da dor que se desfaz depois da agonia e só depois do ar que falta, do aperto e da sensação de se perder a vida que já se foi... das lágrimas molhando o rosto, molhando o chão, criando um rio de saudade e dor... um rio que leva e deixa, que traz de novo o novo que virá... o mar se agita em ondas que fulminam o próprio peixe que lá está, que deixam a sereia do mar preocupada cantando notas em baixas toadas pra acalmar a solidão... que vem como tempestade certeira que varre a areia e molha por dentro do coração...
e novamente nasce o sol e seca as molhações que estavam até então e deixa seco e deixa secando ao sol as dores, as emoções... e deixa no peito o nada de sempre, o vazio habitual de uma saudade que já não dói, sendo ela a certeza de que foi melhor... sendo ela a certeza de que quando o peito precisar ficará cheio novamente, de amor se preencherá... fica a mão preza na outra que nunca mais solta, que nunca mais sozinha, que nunca mais solidão... já que em outras estradas agora em carreira se encontra caminhando ao lado de quem ama e vendo de cima os que sempre amou... sinto não mais a dor que esmagou meu peito, o afogamento das emoções, sinto a paz de um mundo inteiro que está nas costas mas com fio-barbante sendo puxado por quem já se foi...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

virtualidades

eu temos de verdade as virtualidades
que nos levam prum mundo
que nos tiram de outro
tão real
tão irreal
tenho medo de me tornar máquina
de escrever, de descrever, de não viver
tenho medo de virtualizar
de começar a esquecer
como se faz na verdade
pra viver
tenho medo de me chipar
de me raquear
de deixar entrar em mim um vírus
que destrua o programa
que me torna humana
tenho medo de acordar um dia
estar dentro de uma tela
de não mais falar
só digitar
só digitalizar
só pixalizar
de não sentir
as virtualidades estão cada vez mais presentes
mas no futuro eu temo
que não se saiba mais
como lidar com pessoas ao vivo
nesse mundo tão morto
das virtualidades

aos abutres com carinho

vou retirar meus olhos da face e jogar aos abutres, vou contratar uma dúzias deles para me seguir até o fim do mundo, onde jogarei meus olhos como pagamento pelo trabalho...
vou retirar da face sem lacrimejar e atirar ao alto, vou gritar bem alto números de um até três e arremessar para que sejam devorados ao vivo, ao morto, para que sejam devorados e tenham mais serventia como alimento de estômagos do que tem servido à minha'alma...
vou retirá-los de onde agora estão já que não me cabem, já que não mais me servem, já que olham o que não se pode ver, olham o que não devem... vou retirá-los e deixar de aviso para que os demais órgãos possa saber de maneira cruel e pontual o que é que acontece quando um deles desobedece os meus desmandos...
vou retirá-los sem aviso, sem prejuízo ao meu juízo abalado pelas fotografias que tiram meus olhos sem que ao menos eu possa me defender, me revelar... vou caminhar sem sentido no sentido da minha intuição, tateando no escuro a beira do muro da minha sanidade mental...
vou retirá-los e esquecer que um dia os tive, que um dia olhei, que um dia vi... retirá-los e colocar no lugar duas cobras, dois escorpiões, dois venenos, dois desagrados, duas buricas foscas... colocar no lugar qualquer coisa que minta pra mim e não me revele verdades envenenadas pelas imagens que se formam adiante da minha retina...
vou retirar os meus olhos num dia de sol e jogar aos abutres, já que carcomidos eles já estão por dentro, só me resta levá-los ao júri do meu pensamento que os condena a virar alimento de ácidos e não das minhas amargas desilusões...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A+3+3= 60 ANOS OU NÃO???

eu estou caminhando na direção certa? estou caminhando na direção certa agora? estou caminhando então? vocês estão caminhando e (pausa) vocês estão caminhando e (pausa) eu não estou caminhando mesmo quando vocês estão caminhando no caminho certo. vocês caminham e eu não, vocês e eu não. apague e luz, por favor. apague a luz? apague a maldita luz, por favor? apague! (grita) a-pa-gue!!!
minha mão está dormente, não há mais sangue nela? você consegue ver que não há mais sangue na minha mão agora? eu carrego uma parte do mundo comigo, como uma mala com uma muda de roupas, uma muda na mala, uma parte muda do mundo que não muda, eu não mudo! não mudo! não mudo de mão se você me ajudar e criar um mundo com muito gás hélio, eu não mudo...
eu sei dos meus papéis aqui, sabemos todos não? eu caminho quando vocês caminham e conversamos coisas banais no caminho de volta para casa, quase o nosso caminho de volta, não venta, não volta. caminhamos rumo ao conhecido caminho de volta pra casa. eu vou rir agora, vocês me acompanham? me acompanham no caminho e num risinho que pode aparecer pelo caminho de volta ao começo, pode aparecer no meio do começo!
todos conhecem essa porta, as portas mudam, muda? é nessa hora que eu pergunto e vocês me respondem. tem um "V" na portaria e um "B" na poltrona. as portas mudam, eu pergunto e "V" me indica a escada. vocês vão de elevador, eu me pergunto? vão de elevador? vão me perguntar, eu me pergunto?
a mesma porta, elas mudam, as portas mudam conforme me mudo? elas mudam de porta em porta. ela se abre num risinho. começo meu meio, movimento, movimento tentando um silêncio que ecoe um mundo mudo enquanto me mudo. espero. espero. espero.espero. o elevador não muda, não como as portas. onde sobem vocês agora? onde sobem? começo.
mais uma porta se muda. agora em minha cintura que se abre em "M", agora. soco o ouvido contra ela, escuto passos. não são números, são mais letras, são letras sem mais, sem mais são letras. minha mão dormente acorda, o sangue volta, entorna a maçaneta, giro, abro, ouço, agora são números, só agora. caminho enquanto vocês agora estão parados. apaguem a luz, por favor. apague!