segunda-feira, 19 de março de 2012

do sem fim

QUEM segue em frente sem olhar para trás.

VAI deixando pedaços de mundo esparramados, que talvez nunca mais possam se juntar.
POIS tem as bordas lixadas pelo desapego e então perdem sua capacidade de se encaixar.
E volta para o lugar de onde veio, sai sem aperto no peito.
COM a esperança de retornar, um retorno ao ponto onde tudo parou e recomeçar.
COMO se estar naquele lugar novamente fosse como apertar um botão de Start.
MAS um botão de pausa quando é ligado e desligado diversas vezes, sempre deixa escapar uns segundinhos pra lá e pra cá.
SEMPRE deixa alguma coisa escapar.
E esses segundinhos não tão representativos somem no espaço. 
SAEM para nunca mais voltar.
E juntando tantas migalhas, se tem um pão inteiro, perdido no ar.
VOLTA com a esperança de que tudo ali tenha ficado parado, lhe esperando.
COMO se ela fosse a bailarina que a caixinha espera para começar a tocar.
MUITO sabe que Deus é quem gira a corda.
QUE o tempo não tem dono.
QUE nada mais consegue parar.
ESPERA ver as mesmas cores que já não são mais as mesmas, ainda que iguais.
ESPERA ter no rosto o mesmo sorriso.
NOS pés o mesmo passo.
NA vida o mesmo caminho.
ESPERA, como quem sentou na beira do rio para não ver o rio passar.
ESPERA já sabendo que não há e nunca haverá um mesmo lugar.

quarta-feira, 14 de março de 2012

deslugar

VOCÊ tem um lugar?
um lugar para ser o que você quiser?

um lugar para sentir, um lugar para amar e odiar, para sorrir e chorar, um lugar para despir, um lugar para caminhar em nuvens, um lugar para nadar com os pés no chão. 
um lugar em que o tempo passe. um lugar em que o tempo não passe. um lugar onde tudo seja bom. um lugar onde chova. um lugar onde faça sol. um lugar para comer. um lugar para passar fome. um lugar para sentar, ficar de pé, deitar. um lugar para dormir e acordar. acordar de bom humor, acordar de mau humor. 

você tem um lugar para fazer bolo?
um lugar para comer arroz de colher. para tomar chá ou café. você tem esse lugar?
um lugar com silêncio e barulho. um lugar comum.

você tem esse lugar?
um lugar para largar e para pegar. um lugar para deixar e para trazer. um lugar para fazer e para desfazer. um lugar para pecar e para santificar. um lugar para ver e para fechar os olhos. um lugar para viver e para morrer. 

você tem?
um lugar para rezar.

você tem um lugar de qualquer tamanho?
você tem um lugar pequenomediogrande. tem um lugar um palmo de chão. um lugar que voa pelo espaço. um lugar que liga outros lugares. um lugar doce e amargo. um lugar descolorido e com toda cor. um lugar para colorir e apagar. um lugar para pintar e apagar. um lugar para sonhar e esquecer. um lugar para sonhar e se lembrar.

você tem um LUGAR?
um lugar para chamar de seu?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

TRANSFORMAÇÕES – Por Caio Fernando Abreu




Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além de certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim.
Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos – acordar, comer, caminhar, dormir - , dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos, olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamava – tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las – vaga e precisamente de: A Grande Falta.
Era translúcida e gelada. Tivesse olhos, seriam certamente verdes, com remotas pupilas. À beira da praia certa vez encontrara um caco de garrafa tão burilado pelas ondas, areias, e ventos que cintilavam ao sol, pequena jóia vadia. Apertou-o entre os dedos, sentindo um frio anestésico que o impedia de perceber as gotas de sangue brotando mornas da palma da mão. Era assim A Grande Falta. Pudessem vê-lo, pudesse ver-se, veriam também o sangue, ele e os outros. Acontece que tornava-se invisível nesses dias. Olhando-se ao espelho, sabia de imediato que estava dentro Dela. No vidro, além dele mesmo, localizava apenas um claro reflexo esverdeado.
Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela. Intrincados, a ponto de um tornar-se ao mesmo tempo fundo e superfície do outro. Amenizava-se às vezes no decorrer do dia, nuvens que se dissipam, turvo de água clareando até o cair da noite surpreendê-lo nítido, passado a limpo, passado a ferro. Então sorria, dava telefonemas, cantava ou ia ao cinema. Mas em outras vezes, adensava-se feito céu cada vez mais escuro, turvo agitado subindo do fundo, vidro bafejado. Sem dormir, fosforescia entre os lençóis ouvindo os ruídos da madrugada chegarem como abafados por uma grossa camada de algodão. Dissipava-se ou concentrava-se na manhã seguinte e, concentrando-se, não Ra uma manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação sem solavancos.
Seu maior medo era o destemor que sentia. Inteiro, sem memórias nem fantasias. Mesmo o não-medo sequer sentia, pois não-dar-certo era o natural das coisas serem, imodificáveis, irredutíveis a qualquer tipo de esforço. Fosse íntimo das águas ou dos ares, teria quem sabe parâmetros para compreender esse quieto deslizar de peixe, ave. Criatura da terra, seu temor era quem sabe perder o apoio dos pés. E criatura do fogo, A Grande Falta crepitava em chamas dentro dele.
Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e ma voz particular e uns gestos habituais e alguns trejeitos pessoais que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o extremo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo. Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. Debaixo da terra, fogo-fátuo soterrado tão profundamente que a pele nem reluzia.
Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena. Isso acontecia apenas quando dentro Dela, pois ao desembarcar, em vez de sorrir ou fazer coisas, freqüentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior. A dor desconsolada e inconsolável, em soluços que o sacudiam cada vez mais fortemente, a cada um deles partindo-se a casca, quebrando-se a moldura, rachando-se o vidro, apagando-se o fogo.
Como uma outra espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos, por vezes – quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas (mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava de pisar, aconteceriam realmente) não era suficiente – povoado com répteis frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e verdes olhos de pupilas verticais.
Não saberia dizer com certeza como nem quando aconteceu. Mas um dia – um certo dia, um dia qualquer, um dia banal – deu-e conta de que. Não, realmente não saberia dizer ao menos do que dera-se conta. Mas foi assim: olhando-se ao espelho, pela manhã, percebeu o claro reflexo esverdeado. Está de volta, pensou. E no mesmo instante, tão imediatamente seguinte que confundiu-se com o anterior, cantava, novamente ele mesmo. No segundo verso, pequena contração, tinha novamente entre os dedos o caco de vidro luminoso. Mas antes que a mão sangrasse, havia preparado um drinque, embora fosse de manhã, e bebia lento, todo intenso. Antes de engolir o liquido, seu corpo ganhou vértices súbitos, emoldurando o desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos abertas, olhos fixos na distância.
Foi um dia movimentado, aquele. Sua casca partia-se e refazia-se, entardecer sombrio e meio-dia cegante intercalados. Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se, ausentou-se. No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Ausência, ou A Grande Partida, ou A Grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la.
Não conseguiu. Desimportou-se com aquilo. Tomado a intervalos pelo anônimo, atravessou a tarde, varreu a noite, entrou madrugada adentro para encontrar a manhã seguinte, e outra tarde, e outra noite ainda, e nova madrugada, e assim por diante. Durante anos. Até as têmporas ficarem grisalhas, até afundarem os sulcos em torno dos lábios.  Houvesse uma pausa, teria pedido ajuda, embora não soubesse ao certo a quem nem como. Não houve. Mas porque as coisas são mesmo assim, talvez por certa magia, predestinações, sinais ou simplesmente o acaso, quem saberá, ou ainda por ser natural que assim fosse, e menos que natural, inevitável, fatalidade, trágicos encantos – enfim, houve um dia, marco, em que o tocaram de leve no ombro.
Ele olhou para o lado. Ao lado havia Outra Pessoa. A Outra Pessoa olhava-o com cuidadosos olhos castanhos. Os cuidadosos olhos castanhos eram mornos, levemente preocupados, um pouco expectantes. As transformações tinham se tornado tão aceleradas que, no primeiro momento, não soube dizer se a Outra Pessoa via a ele ou a Ela, se se dirigia à moldura, à casca, ao cristal ou ao desenho, ao corpo original, às gotas de sangue. Isso num primeiro momento. Num segundo, teve certeza absoluta que se tinha desinvibilizado. A Outra Pessoa olhava para uma coisa que não era uma coisa, era ele mesmo. Ele mesmo olhava para uma coisa que não era uma coisa, era Outra Pessoa. O coração dele batia e batia, cheio de sangue. Pousada sobre o seu ombro, a mão da Outra Pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves.
Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.  

EU ESTOU CANSADA




Cansada de quem com uma faca nas mãos fere dizendo que faca sozinha não faz nada. E depois de ver todo o sangue-vida escorrido no chão, diz sentir muito. Diz que sente muito, quem não sente nada.
Cansada dessa gente sem verdade. Que tendo na boca boas palavras, prefere proferir as mais pesadas, as mais ferinas, as mais babacas.
Cansada de perdoar o erro alheio sem nunca ser perdoada. Ter que passar por cima de minh’alma toda esfrangalhada e sorrir dizendo que compreendo, que aceito, que não foi nada.
Cansada de ficar no canto do mundo vendo gente morta sendo jogada nas valas da impunidade. (Ainda vivas.) De uma sociedade que nada cobra, que nada faz, que nada fala.

Cansada de compreender o incompreensível.
Cansada de ver o invisível.
Cansada de nominar o inominável.
Cansada de aceitar o inaceitável.
Cansada de ser sozinha.
Cansada de andar na mesma estrada.
Cansada de ser ultrapassada por carros de egos inflados.
Cansada de ser pisoteada por pés desumanos.
Cansada de ser mastigada, cuspida e escarrada.
Cansada de não ser nada.

Cansada de quem em prol de um nome, de um sobrenome, de um codinome, erra e diz não estar errado.
Cansada de quem se esconde dentro de tradicionalidades banais para decapitar
delicadezas, cabeças ou sonhos imortais.
Cansada de quem fala sem pensar. Vive sem pensar. Morre sem pensar.
Cansada de quem fala o que quer e não houve o que não quer.
Cansada de quem não é nada.
Cansada de coisa qualquer.
Cansada de qualquer coisa.

Cansada e só.

Cansada.