segunda-feira, 25 de junho de 2012

ANTI-matéria

anti.
Com o peso que deram a esta palavra. Já que quando se pensa em antibiótico, todos sorriem aliviados, mas quando se é anti-natural por exemplo, o que se recebe em troca é a dificuldade dos outros em aceitar que anti é antes de mais nada o lado contrário e nada mais. 
anti.
Com o mundo todo ao revés. Querendo uniformizar as coisas como acham que elas devem ser uniformizadas. Camisas listradas. Calças lisas. Corpos cheios e cabeças vazias. Um lugar para chamar de seu, que só reflete o que todo mundo quer. Mas esse "todo mundo quer" não passa de uma falsidade, de mais uma uniformização, uma não-necessidade, um processo em que todos somos um da maneira mais cruel, mais banal.
anti.
E nos colocam debaixo da língua, um sonho americanobrasileiroeuropeu pra sonhar. E esquecem que sonho é feito de vento. Não dá pra ser igual. Não dá pra ser de todo mundo, mesmo sendo do mundo todo. Pois se der já não é mais.
anti.
Não basta não aceitar. É necessário, preciso, urgente persuadir o contrário. Se você quer assim eles tentam te dizer que deve querer assado, querer porque todo mundo quer. Fazer porque todo mundo faz. Ser porque todo mundo é.
anti.
E ser mulher e não querer se casar. Não querer um homem. Não querer procriar. Tudo isso é anti-natural. Anti-humano. Anti-real. E então não basta não concordar. Tem que descordar agredindo, e só agredir ainda não é o bastante, tem que convencer a não querer mais, a ser igual.
anti.
Abraçar projetos burros de igualdade. De ser como todos são. Uma massa uniforme, que não se descola nunca, que não destoa, que não deforma, que não se desfaz. E então comeremos uns aos outros para ter dentro de nós o que os outros tem e perpetuar o grande ridículo de querer sempre ser igual.
anti.
Ser homem e não querer trabalhar fora. Querer criar seus filhos, limpar a casa, ou qualquer um desses esteriótipos ao contrário. Não! Não dá pra fazer outra coisa, que numa dessas nem é tão diferente assim. Eles não querem. Eles não acham bom. Eles difundem conceitos de como as coisas devem ser. E cada vez que somos o que achamos que os outros acham que devemos ser, somos esse "eles" também.
anti.
É necessário individualizar. Sem achar que individualização é o bobo "cada um por si", que eles acham que é. Ser a cada momento o que percebe ser necessário. Sem defesas. Sem mentiras. Sem precisar se encaixar debaixo das asas da maioria besta que quer apagar, dissolver, diluir, corroer. Ser, sem medo de em seguida não ser mais. Sem medo de ir ou voltar. Simplesmente por instinto, vontade ou experimentação.
anti.
Nem toda massa é profícua. Existem aquelas, fruto da massificação, que são agentes de desgraça, agentes de divórcio do ser individual, sem o qual não há necessidade de sociedade, humanidade. Sem o qual não se faz necessário mais nada. E quem sabe então um mundo melhor.

Antidoto.
Antidoto.
Antidoto.
Antidoto.
Antídoto.





segunda-feira, 21 de maio de 2012

ENSAIO SOBRE O INCRÍVEL



Os seus olhos não vão conseguir tocar. Não conseguirão conjugar a força desta sensação. Vão querer sorrir e chorar. Vão querer fazer coisas que não sabem ao certo o que são. Vão querer e poder. Vão poder e querer. Vão e voltarão cheios de águas deslumbrantes e brilhosas. Não serão falsos, não serão obscuros. Serão como deveriam ser desde o dia em que nasceram. Você estará num lugar que toca o incrível. Um lugar que faz parte, que cria, que faz nascer o incrível. Um incrível possível. Totalmente palpável. Visível.

O seu corpo vai querer falar palavras que ainda desconhece. Ira se pronunciar o tempo todo, com movimentos pulsantes que vem de um lugar que você julgava não existir. Seus pés andarão por caminhos gentilmente desconhecidos, sem precisar olhar. Sem precisar tropeçar em pedras. Sem precisar ser precisos ou compassados. O compasso se transformará em algo contínuo.

E sua mente se derreterá em delícias e desejos de forte ampliação. E escorrerá pelo lado de fora do seu corpo sem a vergonha de ser vista. Fará vista a uma humanidade que deveria existir faz tempo. Sua mente ficará se remoldando, se reacostumando, se customizando com visões de uma grande simplicidade.

Será e é como um começo antes do próprio começo. Antes de tudo existir, mas quando já existe. E se sentirá em casa em terra estrangeira. E as palavras flutuarão por entre seus dedos, fazendo cócegas e provocando arrepios de louvor. Será como estar em casa pela primeira vez depois de tempos ocultos. Como abrir a porta de um sonho e entrar. Como esticar o braço para alcançar a si próprio e poder sentir sua pele macia pelas pontas dos poros bem abertos.

E na boca sentirá o gosto de todos os gostos. Se plantando no céu que há em ti. Sentirá que há gosto em tudo o que há. O ar que entrar pelos seus pulmões fará com que seus órgãos internos flutuem. O ar que entrar pela sua garganta fará com que seus pés fiquem plantados, desde a planta até os dedos. E sua cabeça será como o mundo, grande, enorme, gigante, não terá peso, somente uma memória repleta de fotografia digitais tiradas por olhos ávidos por coisas comuns.

As encontrará. Coisas comuns espalhadas pelas quadras. Pelos imóveis de número ímpar, pelos pares que andam pelas ruas. Será bom. Como dormir e sonhar e acordar sonhando e decidir a hora de terminar de sonhar e preferir não terminar. E tocar tudo com as pontas dos dedos dos olhos nus. Tocar tudo com a ponta da língua em riste na frente do corpo reto que caminha sem precisar saber.

Será um presente incrível, permeado por passados futurísticos, se misturando ao que é vivido naquele momento. Serão dias reais em pensamentos oníricos. Será assim quando habitar o lugar da tua pele.


Será assim em Montevideo. 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

dança.

Alguém para dançar. 
                        Dançar uma música. 
Música qualquer. 
                        Que faz os corpos se embriagarem. 
Dançarem sozinhos.
                        Ainda que acompanhados. 
Que faz corpos se amarem. 
                        Sem depois. 
Que faz dois corpos aparecerem.
                        Um para o outro. 
Como se estivessem nús.

VOU ME ARREPENDER POR TE MATAR OU POR NÃO TE MATAR?

E SE TE dissesse que sou frágil como uma pedra? Teria a tua vida capacidade para entender a dureza que sinto? Conseguiria seguir além das escarpas dos aborrecimentos diários criados por pensamentos que repetem o que se repetiu há algum tempo e ultrapassar a linha fria do que você é para compreender o que sem palavras te digo? Palavras outras baseadas em sangue, afetos, dores, saliva boca a dentro. Palavras ainda desconhecidas pelas paredes do teu corpo. E seus pés? Seriam eles capazes de perceber a dor de quando me pisam? Seriam capazes de ir além de sua pequena completude e me virar do avesso com a carícia de quem deseja saber o que há por dentro? Ou continuamos desejando sentar em cadeiras de vento e pisar pedras que nada sentem? A sensibilidade está tanto na superfície quanto no tegumento, tanto na carne quanto no oco e não há nada mais impressionante do que ver um dor latejar ao seu lado e ser imune ao latido do cão sempre alerta. Já que não somos feitos apenas de vento, mas de humores que se completam e se comprimem e se dissolvem. Mas como matriz disso tudo palavras desconhecidas que se conjugam como se não mais pudessem suportar o fato de serem feitas de pedra. O que há tempos já não são.
Até quando.