sexta-feira, 28 de setembro de 2012

E se não der mais?

Como é que a gente faz? 
Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima?
Por cima de quem? 
De mim ou de você?
Quando já não há mais saída.
O melhor é ficar onde está ou escavar as paredes?
Quando não se sabe o que quer.
É preciso querer o querer.

As vidas se encostam.
As vidas se separam.
As vidas seguem.
As vidas voltam.
Nós somos a vida.
Sua vida pertence a você?
Ou é apenas um joguete de vontades alheias?

Como é que a gente faz?
Quando não somos mais capazes de perceber.
A diferença de ser ou não ser.
Levanta e segue em frente?
Segue em frente que atrás vem gente?
E o medo de ser pisoteado é a perdição.
É preciso querer, ou então...

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

FILHO DE DEUS

Estava na sala do médico. Meio com medo. Meio com curiosidade. Nunca tinha ido. E a mãe orientava de todo jeito. O que fazer, de que jeito fazer, o que falar, de que jeito falar. O tom da voz, a postura do corpo. Tudo baseado numa máxima. Somos filhos de Deus e temos que nos comportar como tais.
E então que o médico era renomado. E então que o consultório, desde de cedo, era lotado de gente a espera de uma consulta, de um encaixe, de um favor, de uma palavra com o Doutor. E eles ali, misturados naquela maçaroca.
E chamavam um. E chamava outro. E nada de chamarem pelo nome dele. Já estava ficando impaciente. E achava engraçado, em sua cabecinha pequena, um paciente impaciente. Mas era educado, incapaz de contrariar a ordem das coisas.
Mas o tempo foi passando. E com ela aumentando as coisas pequenas. O que era impaciência virou implicância. O que era fominha, virou fome voraz, o que era medo virou pânico e assim por diante. Começou a deixar de lado a boa educação para dar lugar a verdadeira sinceridade.
A mãe não sabia mais o que fazer. Não podia abandonar a chance de ser bem atendida no renomado consultório, mas já não suportava mais olhar para a cara do menino, que a essa altura fazia e desfazia, mandava e desmandava pela sala de espera-longa-espera.
O pandemônio estava instaurado. As secretárias destratadas, os pacientes se digladiando, as revistas desorganizadas, um verdadeiro caos. E o Doutor lá dentro, alheio a tudo isso, realizando calmamente as suas consultas.
No auge da balburdia, chega um homem que parecia impecável, porém arrogante. Aquela impecabilidade que deixa o ar pesado de tanto que é. Conversa diretamente com a secretária, sem fazer muito alarde. Segue para um canto e mesmo tendo um espaço vago em uma das cadeiras, não se senta.
Em seguida a porta do Doutor se abre, sai o paciente que lá estava, com uma cara de nem mais nem menos amigos.Neutro. E o Doutor quase não é visto. Ele não passa de uma mão que sai de trás da porta e volta com o fechamento dela.
Não tarda nem dois segundos e a secretária entra, com papéis na mão. E ao sair da sala de consultas deixa a porta entreaberta. Uma voz sai feroz lá de dentro. Mas não um feroz que mata e fere. Um feroz que domina e faz querer cumprir a ordem dada. É o Doutor. Ele diz João Jesus de Deus Filho. E para a surpresa de todos que ali esperavam pacientemente, entra o homem impecável que havia chegado não fazia nem minuto.
Se indignaram por dois ou três segundos com o Doutor, mas logo voltaram-se uns contra os outros. Não contra o Doutor, ele não. Estavam ávidos por suas boas consultas. Indignaram-se contra a secretária, coitada, encolhida num canto. E quando já não havia mais para onde ir, e menos ainda o que fazer. Eis que surge uma voz quase retumbante, mas ainda imatura para tanto. 
- Somos todos filhos de Deus! Gritou o menino sobre a sua cadeira.
E o que se viu depois, foi guerra, nem quente, nem fria. Uma guerra morna entre todos contra todos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A mentira é verdade.

Mente que não está calor demais. Que vai suportar.

Mente que não sente o mundo desabar. Consegue Aguentar.

Mente por horas. Por prazer. Por loucura. Por nada mais.

Mente para que a vida seja algo menos impossível.

Que a dor é pouca. Que não está meio louca. Que sabe o que está fazendo. Aonde está indo. O que está acontecendo. Que já comeu. Que esqueceu. Que vai ficar bem. Que quer também. Que não é tudo igual. Que se sente especial. Que escovou os dentes. Que ainda tem dinheiro. Que tem sossego. Que não tem medo. Que guarda segredo. Que vai melhorar. Que vai acabar. Que chegou a hora. Que nunca vai embora. Que sabe que sim. Que sabe que não. Que ama. Que sonha. Que realiza. Que pensa. Que sente. Que sente muito. Que conhece o discurso. Que entende o percurso. Que não gosta do outro. Que já quer dormir. Que já quer acordar. Que está satisfeita. Que se respeita. Que sabe da cerca. Que a vida é perfeita. Que é como dá para ser.

Mente que está acordada.

Mente não ver a estrada.

Mente. Pois na verdade. Nem sabe mentir.

sábado, 15 de setembro de 2012

Vivia enrolando o amor num retrós.

Dizia que ele mais ela.

Eram nós.