domingo, 14 de abril de 2013

SAVE MY FRIEND




Me fez dormir tarde. Me fez esperar. Tatuou escritos no braço esquerdo enquanto esperava para chegar a lua. Foi a lua calçando tênis. E lá esperou o dia nascer. E lá esperou o mundo acabar. E lá espetou num palito o amor.
E sentiu falta de não ter o que comer. E sentiu falta de não ter o que fazer. E sentiu pela prima vez o que era sentir. E se debruçou na janela e disse a quem quisesse ouvir. Estavam todos surdos as suas afirmações. Vocês, que estão surdos as minhas afirmações. Já não lhes direi mais nada, como isto que agora vos digo. Já não lhes direi.
E sentiu os pés formigarem como nos tempos em que. Como nos tempos em que. E nada disse. Para que palavras, se não há mais quem possa ouvir? Elas não podem ser desperdiçadas, jogadas a ouvidos decorativos, que são por fim o que restou de uma civilização inteira. Que foi o que sobrou do amor. Que foi.
O tijolo aparente, aparentemente segura a parede que se resume a uma parede do que um dia foi um conjunto habitacional-racional. A parede de tijolo aparentemente aparece vez por outra para nos visitar, jogamos cartas de amor. Jogamos.
Goodbye my friend. Somos o que restou de uma não solução. De uma não ocasião para se dizer. Somos distantes do restante de nós. Somos o que dá. O que pode haver entre duas pessoas normais. Somos isso que somos.
Eu não vou implorar para ver o fim. Eu não vou implorar. Não vou ajoelhar aos pés daquele monte, como costumávamos fazer nos tempos de aflição. Hoje somos maiores do que o monte que nos criou. E não vou me ajoelhar, a não ser para beijar seus lábios rachados de sol. A não ser para beijar seus pés e implorar por seu amor.
Somos o que restou. O resto de tudo o que se foi. E que nem era tão pouco assim. E que nem éramos tão poucos assim, como agora sou. E não há nada mais ao redor. Acima de nós, o que há, não nos deixa partir.
Somente ir ate a lua e voltar. Somente ir ate a lua e vomitar nossas dores derretidas pelo sol. E depois voltar. E depois o dia depois de hojeninguém mais sabe. Hoje só o amanhã que virá. Não para nós. Mas para cumprir o que deve ser feito. Somos. Não mais. Somos. Até que amanheça e não haja.

- Você está de tênis.

- Sim.

- E o que faremos agora que tudo isso que havia dentro de nós se espalhou e as letras de nossos nomes estão confusas.

- Caminharemos até a lua e faremos de lá.

- E o que faremos agora que as palavras que estavam por dentro começam a brotar em nossa pele.

- Caminharemos até lá.

- Você está de tênis.

- Eu não sei mais o que fazer.

- Então aparentemente ele não virá nos salvar.

- Salvar de que?

- Sim. Salvar de que.

terça-feira, 26 de março de 2013

BRAVA GENTE BOA





Brava gente brasileira
Frita até ovo sem frigideira
Da seu jeitinho com muito orgulho
Desde o patrão até o cata-entulho


Brava gente brasileira
Que leva sol na sua moleira
Desde cedo tem que aprender
Que no Brasil não basta só nascer

Brava gente brasileira
Que sofre na pele
Mas não bambeia

Brava gente brasileira
Tem tudo que precisa
Por onde campeia

Essa gente que tem muito amor
Orgulho de viver aqui, sim senhor
Que sobe desce, que desce sobe
Que é humilde, que é esnobe

Que ainda tem muito que aprender
Mas com coração já sabe mexer
Que tem muito com que lidar
Mas seu país só sabe amar

Brava gente brasileira
Que sofre na carne
E ainda peleja

Brava gente brasileira
Chuta a bola
Faz brincadeira

Brava gente do meu país
Sofre calado, mas é feliz
Desce ladeira, sobe ruela
Come no prato e na panela

Brava gente que somos nós
Com pingo n’água roda retrós
Que não existe nenhum igual
Seja na luta, no futebol ou no carnaval

terça-feira, 19 de março de 2013

Muda


Muda



Fica muda quando tudo muda
E ainda espera uma mão para lhe despir

A tempestade absurda lá fora e ele dorme agora
Ele sempre dormiu

Nada mais lhe assusta
Nem a cozinha fria
Nem o rosto que sorri

Nada mais lhe assusta
Ela não está mais ali

E então ele chora em um dia de sol
Enrolado na cama de calor e cachecol

E então ele não quer mais dormir
Ele não percebe que ela não está mais ali

Pra lhe ouvir a respiração
Para um olho que não

E desfaz a mala noutro canto
Com aquelas roupas enxuga o não pranto

Nada mais lhe assusta
Nem a sala vazia
Nem o rosto que sorri

Nada mais lhe assusta
Ela não está mais aqui


quarta-feira, 13 de março de 2013

Yes, há 10 anos nós temos bananas...



Mas também temos peras, laranjas, maçãs, verduras e toda sorte de alimentos saudáveis. E de lá pra cá já se vão dez anos. E dez anos de quê? De uma formatura...
Sim. Eu sou formada em Nutrição. Não. Eu não pratico o "nutricionismo", sou nutricionista! Com diploma e tudo mais.
Um belo dia a gente se vê grande, e vê também que está na hora de fazer de nós mesmos algo maior. Já estamos estudando há tanto tempo, que já nem sabemos quando tudo começou. Estudamos e pronto. Sem pensar.
E então noutro dia decoramos fórmulas e inúmeras palavras que sabemos que nunca vamos usar. Mas tudo bem, na vida, as vezes é assim, ter e não usar. E passamos num tal de vestibular. E passamos a frequentar a dita cuja faculdade. 
Minha avó, já velinha, dizia que estávamos na "dificulidade". O que parecia ser apenas uma confusão senil da cabecinha dela, era uma verdade. Quantas "dificulidades" passávamos para estar ali. Fadadas a escolher, sem ao menos saber que havia escolha. Escolher uma profissão não passa de uma jogada de sorte.
E lá estávamos nós, trocentas meninas, sim, só meninas, numa sala, sem saber ao certo o que estava por vir. Um labor diário para driblar todos aqueles hormônios desencontrados. Quando 1\4 da sala estava entrando na TPM, outro 1\4 estava saindo, outro tanto estava bem no meio e as que restavam estavam felizes da vida.
E nisso tudo, com aquela pouca idade e experiência nenhuma, haviam as amigas, as inimigas e as tanto faz. Eram panelas, caçarolas, frigideiras e afins, mas todas no mesmo fogão. Lembro que na época era ver quem engordou e quem emagreceu, quem ficou e quem nem beijou, quantos xerox tinha a fulana e qual seria a nota da ciclana. As fofocas, babaleias e gogolfinhos de todos os dias. Era muito fácil querer matar a coleguinha por ter conseguido um estágio melhor do que o seu, ou por qualquer um desses motivos universitários banais. 
E depois de dez anos... E muitas de nós hoje casadas, vividas, crescidas, resolvidas na vida, muitos são os frutos e filhos daquela sala... E agora, quando encontro as "gurias", como ainda costumo falar, não consigo sentir nada menos do que uma saudade! Uma saudade delas e de mim. Um orgulho por sermos tão fortes e persistentes. Uma amizade feliz...
Me desculpem os que leram o texto até agora na esperança de saber os nomes de minhas melhores amigas e minhas arquirrivais, mas já não há mais espaço para isso aqui. Somos outras, como havia mesmo de ser. Ao menos eu sou... Vivi momentos que não deixam mais espaço para outra coisa se não o amor. Não um desses amores marqueteiros e românticos  Não. Um amor verdadeiro, humano, que sabe lembrar das coisas boas e reconhecer o que há de bom no tempo que passa por nós. Somos outras e certas coisas já não nos servem mais...

Sinto muito por não poder comemorar, por estar tão longe daquele lugar que faz parte de mim. Mas sinto mais ainda pelas que mesmo podendo, preferem ficar naquela sala de faculdade que já nem deve existir mais...

Que venham outros dez anos e que continuemos mudando, sempre para melhor! Que venham outros tantos dez anos e muito mais amor entre nós!!